terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O tal do estupro no BBB e os tropeços da Globo

Vamos combinar que o que aconteceu no BBB foi uma sequência de tropeços inaceitáveis para uma emissora de televisão do porte da TV Globo.

Não é possível que essa empresa tenha um departamento jurídico e de marketing tão... ausente [?].
Fato é que depois que rolaram as cenas mais "quentes" com a tal bêbada - Monique - e o suspeito de estupro Daniel - o próprio pay per view lançou a bola de que a moça não se movia e parecia desacordada.
Ou seja, mesmo tendo todas as condições de impedir o ato, mesmo tendo condições de ligar o áudio e perguntar o que estava acontecendo, eles omitiram socorro a mulher. E isso até domingo era caracterizado como crime previsto pelo artigo 135 do código penal - pode ser que mude depois dessa atitude deplorável, vai saber, né?


Art. 135 - Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública:

Pena - detenção, de 1 (um) a 6 (seis) meses, ou multa.


Após as cenas as redes sociais explodiram de comentários e divulgação e o assunto passou a ser o hit da internet. Atores globais, como a Fernanda Paes Leme e Fernanda Lima que twitaram com repúdio a atitude do moço, excluiram seus posts com alegações infantis do tipo "meu twiter foi rackeado" - Só se foi rackeado pelo Boninho, né, melbem?

E o que vimos a Globo fazer? Simplesmente ignorou o ocorrido. Não tomou a frente para pedir apurações da justiça. Não passou o vídeo pra que a moça visse, simplesmente a chamou no confessionário e perguntou se "foi consentido". Mas... O que foi ou não consentido já que, em teoria, ela não lembrava de nada? Foi tudo tão patético que depois que saiu do confessionário, a menina ainda foi perguntar a Daniel o que tinha acontecido. Isso parece normal para quem havia "consentido" alguma coisa? Talvez no Projac seja, mas aqui no meu mundo que costumo chamar de real, não me parece.

Entrevistam o Boninho e ele diz claramente: "Não houve estupro e Daniel é vítima de racismo" Fonte
Hum... Oi? Desculpa, não sabia que o Boninho era a pessoa mais capacitada pra definir o que é ou não estupro - aquele crimezinho hediondo, sabe? Oportunista, who?

Programa de domingo. Aquela expectativa sobre que atitude que a Globo tomaria. Dia de paredão, audiência bombando porque todo mundo queria saber o que de fato aconteceu e eis que eles tomam a atitude mais repulsiva possível - A essa altura, a dimensão do possível estupro tinha passado das páginas da internet e tomado as primeiras páginas dos jornais populares do país, virou conversa de bar. Todo mundo esperando uma declaração, qualquer coisa e eis que ela surge da boca do Pedro Bial: O amor é lindo!


Vamos lá, com meus poucos conhecimentos de marketing e de direito, conquistado com pouco mais de uma década de estudo, eu penso que se há uma controvérsia diante de uma determinada situação. Na verdade, não é uma simples controvérsia... Se há uma comoção pública que suspeitava do ato como sendo um estupro... o amor é lindo? O que dizer disso? Não sou feminista, mas isso é ou não o cúmulo do aceitável?

O que surgiu de declarações na internet do tipo "Ah, ela queria. Estava pedindo". Não comento declarações como essa porque meu estômago - e meu intelecto - não me permitem. Acredito que qualquer tentativa de colocar na vítima a culpa de um crime como esse é covarde. Mesmo porque, ela estava em um programa de televisão, sendo filmada 24 horas por dia, que já está na 12ª edição no Brasil e que é sucesso no mundo inteiro. Que pessoa seria capaz de supor que poderia ser estuprada lá dentro?

E aí, quando todo mundo achou que iam abafar, a polícia resolveu intervir. Será que a Globo esqueceu que a gente tem polícia? Será que ela acha que ainda vivemos na ditadura militar e que era só ligar para um coronel para abafar a história? Pelas atitudes dela, deve ter achado que estava ali pelo ano de 1969, não?

Eis que a polícia surge para acabar com a festa e leva Daniel da casa, toma um depoimento de 4 horas da vítima e o que a Globo faz? Continua imbecilizando ainda mais o telespectador que anuncia na edição do programa ela voz do Pedro Bial - o mesmo que declarou que o amor é lindo - que Daniel foi expulso do programa por desrespeitar regras. Que regras, Bial?? Ah, público Homer Simpson, vocês não precisam saber. As câmeras foram desligadas, o áudio foi cortado e a casa mais vigiada do Brasil ficou às escuras tentando esconder a vergonha de uma emissora de TV que foi baixa e criminosa.

E aí o Boninho vem dizer depois da declaração: "Estupro não houve. O problema é que a lei brasileira é muito ampla. O que se discute é o abuso [sexual], porque ela estava fora de condições. Ela estava sóbria, mas dormiu profundamente. Ele saiu do programa porque passou dos limites do relacionamento com as pessoas. O que ele fez na noite, até na visão dela, foi exagerado. A gente avaliou que a atitude dele foi ruim. No meio de uma festa, uma cantada mal dada pode causar uma eliminação", segue o diretor." Fonte


Vamos lá:

Art. 215.  Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima: 
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos. 

A questão é que desde 2009 tudo passou a ser caracterizado como estupro.

Sim, o mesmo diretor que disse que Daniel estava sendo vítima de racismo.Vocês avaliaram a atitude dele como "ruim", Boninho? Engraçado, a única coisa que eu achei que vocês não fizeram foi "avaliar".

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Miss Universo 2011

Não costumo acompanhar o concurso de Miss. Na maioria das vezes nem sei quem são essas moças, mas, como o concurso esse ano foi no Brasil, acredito que a repercussão tenha sido ainda maior.


A repercussão aumentou ainda mais por conta da eleição da Miss Angola Leila Lopez como a grande vencedora do título. Vamos combinar, a mulher é linda. Só que não tem como não olhá-la e pensar no racismo. Aliás, ela deu uma declaração sensacional sobre isso: "O racismo não me atinge, quem é racista deve procurar ajuda. Qualquer forma de preconceito é a maior injustiça do ser humano… (...) Acho que os racistas precisam procurar ajuda, não é normal em pleno século XXI ainda pensarem nessa forma"


Eu estava olhando... A primeira e última vez que uma negra ganhou o Miss Brasil foi em 1986. Faz muito tempo não faz não? Principalmente para um país que tem 52% de população negra ou parda (dados de 2009).


Daí, lendo matérias sobre o Miss Universo e caí nesse site.


Um dos comentários me chamou atenção: "ACHEI OTIIMO, GANHOU QUEM MERECEU, SIMPATICA , INTELIGENTE, DE RAÇA, POREM LINDA" sic (grifo nosso)


Sem comentários.

terça-feira, 19 de julho de 2011

A tal da ressonância

Nos últimos dias tenho passado por coisas um tanto quanto curiosas... Talvez seja um dos benefícios que a idade traz, mas estou com um problema de coluna que me rendeu um problema no estômago que me rendeu um problema no fígado e que me deixa com enxaqueca por quase um mês, no mais, a família vai bem.

Enfim, fui a um ortopedista saber o que poderia ser e ele disse que tudo indica que seja hérnia de disco. Depois desse diagnóstico animador, ele me manda fazer uma ressonância magnética.

Voltei toda serelepe pra fazer a tal da ressonância. Primeiro liguei para o local em que eu faria e fiquei, nada mais nada menos que 20 minutos falando com a atendente pra marcar o tal exame - o laboratório tem uma central exclusiva só para ressonâncias.

Após inúmeros questionamentos, agendei o exame e, na data marcada, fui até o local - morrendo de preguiça, mas fui. Entreguei minha identidade e me mandaram pra uma outra sala. Lá chegando, além do questionário de 20 minutos pelo telefone, tive de preencher um formulário com informações que eu nem sabia direito responder. No final, me mandaram tirar a roupa e vestir um pijaminha - uma blusa e uma calça de moleton.

Deitei na máquina, uma senhora muito educada colocou uma almofada nos meus pés pra eu ficar mais confortável e me colocou dentro do tubo. Como ela estava regulando a altura, eu fiquei entrando e saindo do tubo várias vezes, daí eu perguntei assim, como quem não quer nada:

- Quanto tempo demora esse exame?
- Uns 15 minutos.

Ela me deu um botão anti-pânico que eu poderia acionar caso me sentisse mal.
Quando eu entrei de vez na máquina, percebi que não dava pra mexer meus braços pro lado pq estava encostada na parede do tubo - não que eu pudesse me mexer, mas enfim... - quando abri os olhos, o teto do tubo estava a dois dedos do meu nariz.

Meu cérebro não conseguia pensar em mais nada além de: vou morrer - uma placa de metal (que eu não tenho) vai saltar de dentro do meu corpo e explodir essa máquina! Eu não consigo respirar!
Nunca senti meu coração acelerado daquele jeito (Ênfase no nunca). Lembrei que uma das perguntas do questionário infindável era: Você é claustrofóbica? Óbvio que eu respondi que não. Não sou, ou melhor, não era até essa experiência.

Comecei a apertar o botão, totalmente em pânico e uma voz de um rapaz me perguntou se estava tudo bem e eis que respondo:

- Meu coração tá muito disparado, eu acho que vou passar mal.

Ele pediu pra eu esperar que ele me tiraria da máquina e eu só pensava que se ele demorasse, eu ia desmaiar (o que não seria ruim). Ele chegou em uns 30 segundos, me tirou daquele tubo maldito e... Quem disse que eu levantava da maca? Comecei a tremer feito uma louca, meu coração saltando pela boca e, claro, morrendo de vergonha de olhar pro rapaz.

Ele disse pra eu relaxar que isso acontecia o tempo todo, que é difícil ficar lá dentro e que eu devia tentar em uma máquina mais aberta. Quando consegui me levantar e sair da sala pra vestir minha roupa, a outra senhora veio e perguntou se eu conseguiria fazer de olhos fechados e eu respondi que só se eu estivesse sob efeito de anestésico.E ela emenda:

- Eu sabia que você não conseguiria porque sua respiração mudou quando você entrou.

Vaca! Tenho certeza que eles fazem apostas pra saber quem chegará até o final desse exame maldito.

Se eu tenho hérnia de disco, não sei, mas sei que posso acrescentar uma nova patologia a minha listinha: claustrofóbica - em grau máximo. Não quero nem pensar em metrô.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Ensaio sobre a beleza

"Ó beleza! Onde está tua verdade?"
Shakespeare

Esses dias estava conversando com uma amiga e ela perguntou:

- Fulana já casou com cicrano?
- Não sei, acho que casa esse mês
- É, parece que ela até já se mudou pra São Paulo

Contextualizando: Fulana e cicrano se conheceram pela internet. Ela morava em Goiás, trabalhava na prefeitura e ele era professor da USP e morava em São Paulo. Voltando a conversa.

- É, deve ter mudado...
- Sei lá, largar tudo assim
- Ah, às vezes 'tudo' é quase nada
- Largou família, emprego estável... Mas eu não me conformo... Ele é feio
- Como assim?
- Ah, ele é esquisito. Eles nunca vão andar na rua e vão dizer 'Lá vai um casal bonito'.

E eu fiquei pensando... Tanta coisa pra pessoa ser... A pessoa pode ser interessante, inteligente, culta, divertida, carinhosa, boa de cama... Beleza é tão... nhé.

E aí tem uma clássica frase do Quintana: "Dizes que a beleza não é nada? Imagina um hipopótamo com alma de anjo... Sim, ele poderá convencer os outros de sua angelitude - mas que trabalheira!"
Só se ele tiver trabalho com os outros.

Detalhe que a menina que está casando não é nenhum padrão de beleza, nem eu sou, nem a pessoa que estava falando comigo, nem ninguém que eu conheço é. Então, por que exigir que o outro seja?
Eu saio com uma pessoa bonita e faço o que? Coloco-a na minha frente e fico olhando? E com quem eu gasto minha cultura? Com o nerd feio que conversa comigo pela internet? 
Se eu quiser ver beleza vou a um exposição de arte renascentista e, pra me acompanhar 'ser bonito' não diz nada.

E quando eu penso em casamento... Conviver com uma pessoa no mais alto grau de intimidade - coisa que eu já disse aqui que não estou disposta a fazer - porque ela é... bonita?

Porra, o cara é professor da USP, deve ter uma bagagem cultural do tamanho do mundo, todo mundo diz que ele é simpático demais. Pro inferno, até eu casava com ele!
Futilidade demais me assusta.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

#filhadaputice

Eu amo sapatos. Sou daquelas que compram só por achar bonito, mesmo que nunca use. Quando cismo com um, então, vou até o fim do mundo querendo.
Enfim...

Hoje passei em frente a uma loja da Paquetá e vi uma sandália que eu adorei (muito). Tinha dela em duas cores: Preto e uma outra que eu não sei definir, mas que era muiiito feia. Perguntei pra vendedora se tinha meu número, mas, adivinhe, só tinha o da cor feia. Acabei vendo um outro scarpin preto bonitinho, comprei e voltei pro escritório. Só que a sandália não saía da minha cabeça...
Entrei no site da marca pra ver se tinha outras lojas e descobri que tinha outra uns 3 quarteirões dali. Quando saí do trabalho, fui andando até lá pra ver se tinha o meu número na cor preta.
Quando entrei na loja, levei um susto. Os vendedores que, normalmente avançam em cima de você se esquivaram, fingiam que não me viam quando eu chamava. Daí eu me dei conta: eu estava com a sacola da loja na mão.
Cutuquei (literalmente) um vendedor e perguntei se tinha a tal sandália. Ele fez cara de espanto e disse que iria olhar no estoque. Quando estava no meio do caminho, ele voltou (sim, ele voltou!!!) e perguntou: "A senhora quer fazer uma troca?". Eu olhei pra ele com cara de poucos amigos e respondi: "Se você me atender, eu pretendo comprar".
Fiquei tão revoltada que virei as costas e fui embora.
Agora vê, fui mal atendida porque já tinha comprado na loja.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Eu e a melancolia

"Às vezes me dá enjôo de gente
Depois passa e fico de novo toda curiosa e atenta. E é só."
Clarice Lispector
Não sou dada a melancolias.
Não vivo por aí reclamando da vida, achando que há uma conspiração mundial para me fazer infeliz. Também não sei definir se sou feliz ou infeliz... Me sinto meio indiferente a tudo e até usaria o termo 'blasè' se não tivesse virado modinha - eu não gosto de modinhas.

Há milênios que não escrevo. Não escrevo porque não sinto vontade, mas também porque penso que ninguém tem interesse pelo que sinto/penso/vivo. Tiro os outros um pouco por mim. Sou daquelas pessoas que não sentem atração nenhuma por saber da vida alheia. Meus amigos acompanham blogs, discutem sobre as vidas de pessoas que nem sabem que eles existem e eu acho tudo tão... estranho. O que raios a vida de uma pessoa que mora no interior do Mato Grosso tem a me acrescentar? Enfim, não vim escrever sobre isso...

Esses dias estou obcecada por uma música da Kelly Clarkson chamada Because of you. Eu me identifico muito com partes da música: I never stray too far from the sidewalk; I learned to play on the safe side, so I don't get hurt; I find it hard to trust not only me, but everyone around me; I am afraid.... E a música segue. Ela me descreve em quase todos os versos, mas eu não tenho o 'because of you'. Não tenho alguém que me machucou profundamente a ponto de me tornar uma pessoa diferente e fechada para o mundo, eu simplesmente sou assim. Não sei se fui sempre assim ou se o tempo me tornou desse jeito.

Por que eu estou falando disso? Ontem estava conversando com um amigo sobre casamentos. Ele está eufórico com o relacionamento, vai casar. Ele sempre disse que nunca casaria, mas eu não acreditei. Existem pessoas que dizem isso porque, sei lá... Vai que elas não casam, daí podem dizer 'ah, mas eu nem queria mesmo'. - Aham... (Beijo, te amo, me liga). Eu não... Eu já quis casar. Namorei por 8 anos, um namoro cheio de altos e baixos e, nesse meio tempo eu quis casar. Ter uma vida junto, ver todos os dias, mas... Hoje eu não quero mais. Eu gosto de estar só, mesmo quando tenho de trocar uma lâmpada, quando o chuveiro queima ou quando a máquina de lavar para de funcionar.

Não tenho paciência pra conhecer novas pessoas. Acho que já conheci gente demais na vida e, como eu já cansei de dizer, não gosto mesmo de gente. Não que eu não me apaixone, eu me apaixono - quase toda hora - mas as paixões passam na primeira demonstração de fraqueza. Não quero ter de aturar manias e medos e defeitos de seja lá quem for. Eu tenho os meus e isso basta.

Nessas horas os mais sonhadores dizem: Ah, você vai encontrar alguém que vai fazer seu coração saltar pela boca e tudo o que você está dizendo cairá por terra. Quais as chances disso acontecer? Sei lá... Não tenho as estatísticas, mas, de fato, tudo pode acontecer. Eu posso jogar na loteria amanhã, fica rica, comprar uma casa em Mônaco e viver feliz pra sempre assistindo séries com o meu gato - Aliás, eu prefiro isso a encontrar 'um grande amor'. Acho que a maioria das pessoas toma decisões e atitudes quando o cérebro está cheio de endorfina (ou morfina, como diria o médico da Claudia), totalmente apaixonado e, depois vai mantendo porque fica o companheirismo, a amizade e blá blá blá. Só que eu não vou me prender a alguém por isso... Mesmo porque, sempre que uma paixão começa, eu sei que ela vai passar e vivo esperando por esse dia. 

Não sou uma pessoa negativa, nem pessimista, nem nada do gênero - Talvez eu até seja um pouco, mas não deixo transparecer no dia-a-dia. A questão é que, mesmo quando eu estou perdidamente apaixonada por alguém, eu gosto de pensar que essa pessoa vai embora pra casa dela e eu vou poder respirar de novo. Eu só consigo respirar sozinha.

Agora chega que isso já virou terapia em blog. 

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A unanimidade do STF

Toda verdade passa por três estágios: No primeiro, ela é ridicularizada; No segundo, é rejeitada com violência; No terceiro, é aceita como evidente por si própria.
Arthur Schopenhauer

Eu, terminando a faculdade de direito, estava procurando um tema pra fazer a moografia. Passei por direito administrativo, trabalhista, constitucional... Nunca, jamais pensei em fazer sobre direito de família. Apesar de ter passado com 10 e louvor em direito de família, eu odeio todo e qualquer ramo do direito civil.

Até que um dia, uma amiga, que também faz direito, diz: Escreve sobre o casamento gay. E eu comecei a pensar... É um tema batido, mas acho que vou gostar de escrever. Comecei a pesquisar pra fazer o projeto e aquela pergunta que a maioria das pessoas tem dificuldade de elaborar, surgiu naturalmente: Por que não pode?

Resolvi não falar sobre legalidade nem nada do tipo... Fiz um estudo sociológico. Falei sobre preconceito, sobre os argumentos do direito canônico e coisas do tipo... E a pergunta continuou, mesmo depois da conclusão: Por que não pode?

Pensando em termos práticos: somos um país laico, regido pela Constituição - e não pela Bíblia - e a nossa constituição, talvez por ter sido feita depois de um longo período de ditadura, se esforça em reafirmar todos os direitos humanos. E qual o principal direito humano? A felicidade, ora! Todos tem o direito de ser feliz.

Quando comecei a pensar nesse assunto, percebi que a saída jamais viria do legislativo, por um motivo muito simples: é política. Os políticos precisam de votos e não iam querer vincular sua imagem a uma minoria e desagradar as famílias evangélicas e católicas. A saída precisava vir do judiciário. Porque, apesar de ter visto decisões de alguns juízes que me embrulharam o estômago, eu tinha fé de que quando chegasse no STF, eles garantiriam o direito. É o STF, o guardião da constituição e, sério, quem tem o mínimo de conhecimento sabe que o que estava acontecendo era absurdo. E outra, os Ministros do STF não dependem de votos. Seus cargos são vitalícios, eles só tem compromisso com a verdade e, apesar de as vezes escorregarem em alguns assuntos, com relação aos direitos humanos, eles tem feito seu trabalho muito bem, obrigada.

E foi assim, como tinha que ser, por unanimidade que eles disseram que os gays também são seres humanos que merecem ter dignidade. Não é exagero, a decisão foi essa. E o reconhecimento da relação não é bobagem. Por causa do não-reconhecimento, 37 direitos eram negados aos LGBTs, pra ter idéia: Não podem casar; Não tem reconhecida a união estável;  Não adotam sobrenome do parceiro; Não podem somar renda para aprovar financiamento; Não podem somar renda para alugar imóveis; Não inscrevem parceiro (a) como dependente no serviço público;  Não podem incluir parceiros (as) como dependentes no plano de saúde; Não participam de programas do Estado vinculados à família; Não inscrevem parceiros (as) como dependentes da previdência; Não podem acompanhar o (a) parceiro (a) servidor publico transferido; Não têm impenhorabilidade do imóvel em que o casal reside; Não tem garantia de pensão alimentícia em caso de separação; Não têm garantia à metade dos bens em caso de separação; Não podem assumir a guarda do filho do cônjuge; Não adotam filho em conjunto; Não podem adotar o filho do parceiro(a); Não têm licença-maternidade para nascimento de filha da parceira; Não têm licença maternidade / paternidade se o (a) parceiro (a) adota filho; Não recebem abono-família; Não tem licença-luto, para faltar ao trabalho na morte do (a) parceiro (a); Não recebem auxilio-funeral; Não podem ser inventariantes do(a) parceiro(a) falecido (a); Não têm direito à herança; Não têm garantia a permanência no lar quando o (a) parceiro (a) morre; Não têm usufruto dos bens do (a) parceiro (a); Não podem alegar dano moral se o (a) parceiro (a) for vitima de um crime; Não têm direito à visita íntima na prisão; Não acompanham a parceira no parto; Não podem autorizar cirurgia de risco; Não podem ser curadores do (a) parceiro (a) declarado judicialmente incapaz; Não podem declarar parceiro (a) como dependente do Imposto de Renda (IR); Não fazem declaração conjunta do IR; Não abatem do IR gastos médicos e educacionais do (a) parceiro (a); Não podem deduzir no IR o imposto pago em nome do (a) parceiro (a); Não dividem no IR os rendimentos recebidos em comum pelos parceiros; Não são reconhecidos como entidade familiar, mas sim como sócios(as); Não têm suas ações legais julgadas pelas varas de família.

Depois dessa decisão, esses verbos serão julgados no passado. Viu como não era exagero?

A luta terminou? Não, claro que não. Apesar de ser histórica, ela é muito atrasada com relação aos outros países do mundo. E não estou falando da Holanda... Portugal, por exemplo, o segundo país mais católico do mundo ou mesmo a Argentina aceitam o casamento homoafetivo. Essa decisão, no entanto, foi um passo enorme, por um motivo muito simples: Nenhuma lei agora pode determinar que os homossexuais não tem mais esse direito porque vai ser julgada inconstitucional pelo STF.

Encerrando o post (há milênios não escrevo nada...), um pedacinho da conclusão da minha monografia:

É o afeto o personagem principal da família. Não mais o patrimônio ou a tradição. As pessoas se unem em uma vida comum, cooperando mutuamente por sentirem afeto uma pelas outras. Independente do aval do Estado, as famílias homoafetivas existem. Portanto, onde há duas pessoas do mesmo sexo convivendo com comunhão plena de vida, ali há uma família. É um fato social. A não regulamentação não fará com que deixem de existir. Um homossexual não é menos cidadão que um heterossexual, assim como a união homoafetiva não é menos digna que uma heteroafetiva., por isso merece todas as garantias e prerrogativas que esta possui. Apenas respeitando as diferenças será possível construir uma sociedade que preze pela igualdade e dignidade humana.